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Exames de sangue confundem alergias alimentares com alarmes falsos


Para Ingelisa Keeling, mãe de três filhos com alergias múltiplas, a hora de comer era uma luta. Nozes, ovo, trigo, carne bovina, ervilhas e arroz eram todos proibidos – banidos pelo alergologista das crianças.

Porém, recentemente, Keeling soube que a dieta de sua família não precisava ser tão restritiva. Embora seus filhos realmente tenham alergias reais – a amendoim, leite e ovos, entre outros alimentos –, extensivos exames em um grande centro de alergias mostraram que eles não eram verdadeiramente alérgicos a muitas das comidas que evitavam. Seu filho de dois anos, que vivia a base de uma dieta formada basicamente de batatas, frutas e uma fórmula hipoalergênica, voltou a comer trigo, bananas, carne bovina, ervilhas, arroz e milho.

"Sua dieta era tão restritiva que a nutrição havia se tornado uma preocupação real", disse Keeling, que viajou até especialistas do National Jewish Health em Denver, no último verão, buscando respostas sobre a dieta de seus filhos e problemas de eczema. Entre outras descobertas, ela aprendeu que nenhum de seus filhos mais novos era realmente alérgico a trigo.
"Essa foi a grande mudança", disse ela. "O trigo está em tudo, então a vida fica bem mais fácil."

Mania de alergia

Os médicos dizem que alergias alimentares mal-diagnosticadas parecem estar em alta, e incontáveis famílias estão desnecessariamente evitando certas comidas e gastando centenas de dólares em caros suplementos não-alergênicos. Em casos extremos, alergias mal-diagnosticadas colocaram crianças em risco de subnutrição.
E evitar alimentos por alergias equivocadas pode piorar o problema geral – ao tornar as crianças mais sensíveis a certos alimentos, quando elas finalmente voltarem a comê-los.

Estima-se que mais de 11 milhões de americanos, incluindo três milhões de crianças, tenham alergias alimentares, mais comumente a leite, ovos, amendoim e soja. A incidência entre crianças aumentou 18% na última década, de acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Apesar de o aumento parecer real, isso também ocorre com o aumento de diagnósticos equivocados.

O culpado parece ser o uso indiscriminado de exames simples de sangue para anticorpos que poderiam sinalizar uma reação a alimentos. Os exames surgiram como uma alternativa rápida e conveniente aos desconfortáveis testes de pele e aos demorados exames de "desafio da comida", que medem a reação de uma criança ao ingerir certos alimentos sob a supervisão de um médico.

Ineficaz

Enquanto os exames de sangue podem ajudar os médicos a identificar alimentos potencialmente arriscados, eles nem sempre são confiáveis. Um artigo de 2007 da publicação "The Annals of Asthma, Allergy & Immunology" relatou uma pesquisa do Centro Infantil do Johns Hopkins, descobrindo que exames de sangue para alergia podiam ser sub ou superestimados pela reação imunológica do nosso corpo. Um relato de 2003 da publicação "Pediatrics" diz que o resultado positivo em um exame de sangue para alergia só correspondia a uma alergia real em menos da metade dos casos.

"O único exame verdadeiro para saber se você é alérgico ou não a uma comida é comê-la e esperar por uma reação", disse David Fleischer, professor assistente de pediatria do National Jewish Health.

Em um recente caso nesse centro médico, os médicos trataram de um menino que havia recebido um tubo de alimentação porque exames de sangue indicaram que ele era alérgico a praticamente todos os alimentos. O "desafio da comida" permitiu que os médicos introduzissem rapidamente 20 alimentos à sua dieta, e eles esperam adicionar ainda mais.

O truque da semelhança

Os exames de sangue podem não ser confiáveis por não conseguirem distinguir entre proteínas similares em diferentes comidas. Uma criança que é alérgica a amendoim, por exemplo, pode ter resultado positivo para alergia a soja, feijões verdes, ervilhas e feijão comum. Crianças com alergia a leite podem ter resultado positivo para alergia a carne bovina.

A pergunta mais importante ao se diagnosticar alergias alimentares é se a criança já tolerou a comida no passado, diz Fleischer. Enquanto algumas alergias severas são óbvias, os pais que recebem resultados positivos de exames de sangue deveriam buscar conselhos de um alergologista experiente – que realize o exame do desafio da comida supervisionado.

Mesmo quando uma alergia alimentar é confirmada, os pais devem reexaminar seus filhos, pois muitas alergias desaparecem – particularmente em caso de leite, ovos, soja e trigo.
Grupos de médicos também estão começando a reconhecer que algumas de suas próprias diretivas podem ter contribuído aos testes exagerados e aos diagnósticos equivocados. Um comitê da Academia Americana de Asma, Alergia e Imunologia está considerando direcionamentos revisados, recomendando a introdução precoce de alimentos como ovos, amendoim e moluscos, que no passado foram indicados para depois dos 2 ou 3 anos de idade. Um estudo de 2008 com 10 mil crianças britânicas, relatado na publicação "The Journal of Allergy and Clinical Immunology", descobriu que a exposição precoce a amendoim reduzia o risco de se desenvolver a alergia.

Assim como uma alergia indica a supersensibilidade a certos alimentos, pode ser que médicos e pais tenham se tornado supersensíveis às próprias alergias alimentares. Em um ensaio na publicação inglesa "The British Medical Journal" de dezembro, Nicholas A. Christakis, professor da Faculdade de Medicina de Harvard, argumenta que uma "reação exagerada" à alergia está levando a exames desnecessários e falsos positivos.

"Se a criança está bem, eu aconselharia os pais a não realizar exames contra alergias, pois os resultados apresentam mais possibilidades de se tratar de falsos positivos do que positivos verdadeiros", disse Christakis em entrevista. "Se você realmente achar que a criança precisa de um exame de alergias, seja extremamente cuidadoso e procure profissionais de boa reputação."

Fonte: Portal G1



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