Saúde
TAK 500: O bloqueador de gorduras?
As propagandas relacionam o consumo do TAK500 à perda de peso e ao tratamento ou prevenção de problemas de saúde, como colesterol. Quem assiste a propaganda tende a pensar que todos os problemas acabaram. Mas será que acabaram ou começaram?
Recentemente, a ANVISA suspendeu a propaganda do produto,porém ela retornou na televisão nitidamente com uma proposta um pouco diferente.
Esse produto “milagroso” seria composto de Quitosana. A quitosana é derivada da quitina, um polissacarídeo encontrado no exoesqueleto de crustáceos como camarão, lagosta e caranguejo. E muitas vezes vendida em produtos como o Tak 500 para "atrair" a gordura da alimentação, supostamente a quitosana contida no Tak 500 teria a capacidade de atrair a gordura no sistema digestivo e a eliminar do organismo. Pensar que nesses produtos se encontra a solução dos problemas com a balança e adotá-los como verdadeiros milagres, pode ser apenas ilusão. Descubra o porque...
Ainda segundo a propaganda:
“ A ingestão diária de apenas 3 gramas de quitosana pode eliminar em torno de 25 gramas de gordura, o que corresponde à eliminação de cerca de 250 calorias do seu organismo. ”
Teoricamente, a quitosana atuaria quando ao chegar no estomago, a fibra em contato com meio ácido, se solubilizaria transformando-se em gel. Este gel apresenta condições adequadas para atrair e capturar as gorduras presentes nos alimentos ingeridos, levando-as em direção ao intestino, onde a quitosana é solidificada formando um envoltório em torno das gorduras, não permitindo assim sua absorção pelo organismo. Ou seja, apesar da quitosana ser uma fibra similar à celulose, a alegação das propagandas é que ele tenha um efeito especial: o de atrair as gorduras, por ter uma carga elétrica positiva.
Após um levantamento bibliográfico, foi possível observar que tem sido realizados diversos estudos, sobre a possível atividade emagrecedora da quitosana. Entretanto, não há comprovação que a quitosana seja eficaz para o controle de peso. Quaisquer alegações feitas em relação a eficácia ou ação de um método ou produto para emagrecimento deveriam ser sustentadas onde apropriado por ensaios clínicos rigorosos em pessoas; testemunhos que não são sustentados por ensaios não constituem comprovação.
Apesar de ser difícil encontrar evidências científicas dessas incríveis propriedades magnéticas e metamórficas da fibra em questão, estudos em ratos mostram que a quitosana pode realmente ter um efeito benéfico, diminuindo a quantidade de gordura acumulada durante dietas hipercalóricas, bem como reduzindo as morbidades associadas à obesidade nesses casos (Neyrinck et al., 2009; Zhou et al., 2008). Apesar dos animadores resultados obtidos nos pequenos roedores, os resultados em humanos não foram significativos, conforme apontam os resultados de Tapola et al. (2008), no qual 65 homens ingeriram até 6,75 gramas de quitosana por dia por 8 semanas e não obtiveram melhoras nos lipídeos sangüíneos. Em humanos, mesmo os resultados positivos não chegam a ser animadores se analisados em termos práticos. Em um estudo publicado por pesquisadores do Texas, por exemplo, 150 pessoas com sobrepeso foram estudadas por 60 dias, durante os quais um grupo recebeu 3 gramas diárias de quitosana e o outros receberam placebo. Ao final do estudo, realmente houve favorecimento da perda de peso com o uso do suplemento, no entanto, esse favorecimento, em termos absolutos foi de apenas cerca de 500 gramas por mês.
Uma revisão publicada na respeitada base Cochrane aponta dados interessantes. O artigo teve como objetivo analisar os efeitos da quitosana como tratamento para obesidade e sobrepeso em humanos. A revisão incluiu 15 artigos com um total de 1219 participantes. Uma análise inicial de todos os estudos revelou que o uso de quitosana promoveu maior perda de peso, redução no colesterol e diminuição na pressão arterial em comparação com o placebo, sem produzir efeitos colaterais. No entanto, o problema é que, segundo os autores, a qualidade dos estudos era muito ruim e, para não correr o risco de chegar a conclusões equivocadas os autores produziram análises independentes apenas com os estudos de boa qualidade. Nesse caso, os resultados foram outros, não tão animadores. Analisando os estudos com uma perspectiva mais crítica, os autores concluem que, apesar de haver evidências que a quitosana seja mais eficiente que o placebo no tratamento da obesidade e sobrepeso em curto prazo, muitos dos estudos são de baixa qualidade e com resultados variáveis. Por outro lado, os resultados obtidos em estudos de melhor qualidade indicam que o efeito da quitosana na composição corporal é mínimo e improvável de ter significância clínica (Jull et al., 2008).
Dois estudos recentes não encontraram nenhuma diferença significativa no peso ou níveis de colesterol no sangue entre sujeitos que usaram a quitosana e aqueles que receberam um placebo. Um estudo envolveu 30 voluntários acima do peso que receberam quatro cápsulas ou de quitosana ou de um placebo por 28 dias consecutivos e foi pedido que mantivessem suas dietas normais. Os grupos quitosana e placebo não mostraram nenhuma diferença no peso ou nos níveis de colesterol no sangue [2].
O outro estudo envolveu 51 mulheres obesas saudáveis seguidas por 8 semanas. O grupo quitosana teve uma redução no colesterol ligeiramente (mas não significativamente) maior que o grupo placebo, mas não ocorreu nenhuma diferença no peso entre os dois grupos [3].
Diante de todos esses aspectos cabe a nós o questionamento acerca do uso de TAK500. Seria esse realmente um produto confiável?
Uma questão bastante pertinente. É que a quitosana, seria considerada de origem natural e não possuiria efeitos adversos. Ou seja, você pode tomar à vontade e nada acontece? Como isso é possível?
Após um levantamento acerca dos artigos já publicados referente ao uso de quitosana, foi notável a primeira contradição do uso do produto, que até então não apresentaria qualquer efeito adverso.
Estudos demonstraram que o uso de quitosana influencia no metabolismo de cálcio, uma vez que acelera a sua excreção urinária, além de impedir a absorção de minerais e, portanto reduzir os minerais nos ossos, e os níveis de vitamina E no sangue. Convém lembrar que há estudos demonstrando que o uso a longo prazo, promove uma alteração da flora intestinal normal,o que pode por sua vez resultar num crescimento de patógenos resistentes. E ainda é capaz de comprometer a absorção de vitamina B12 pelo organismo.
Considerando todos os aspectos mencionados, fica óbvio o caráter duvidoso dos benefícios citados decorrentes do uso do TAK 500, as alegações dos vendedores são diversas, porém também improváveis. Os consumidores precisam ficar alerta quanto ao uso dessas substâncias, visto que muitas são as ofertas de corpo saudável e sem gordura.
Por:Bruna Torres
Referências bibliográficas:
[2] Pitler MH and others. Randomized, double-blind trial of chitosan for body weight reduction. European Journal of Clinical Nutrition 53:379-381, 1999.
[3]Wuolijoki E and others. Decrease in serum LDL cholesterol with microcrystalline chitosan. Methods and Findings in Experimental and Clinical Pharmacology 21(5):357-361, 1999.
Jull AB, Ni Mhurchu C, Bennett DA, Dunshea-Mooij CA, Rodgers A. Chitosan for overweight or obesity. Cochrane Database Syst Rev. 2008 Jul 16;(3):CD003892.
Kaats GR, Michalek JE, Preuss HG. Evaluating efficacy of a chitosan product using a double-blinded, placebo-controlled protocol. J Am Coll Nutr. 2006 Oct;25(5):389-94.
Neyrinck AM, Bindels LB, De Backer F, Pachikian BD, Cani PD, Delzenne NM. Dietary supplementation with chitosan derived from mushrooms changes adipocytokine profile in diet-induced obese mice, a phenomenon linked to its lipid-lowering action. Int Immunopharmacol. 2009 Jun;9(6):767-73. Epub 2009 Mar 13.
Tapola NS, Lyyra ML, Kolehmainen RM, Sarkkinen ES, Schauss AG. Safety aspects and cholesterol-lowering efficacy of chitosan tablets. J Am Coll Nutr. 2008 Feb;27(1):22-30.
Zhou GD, Li MR, Zhang J, Pan D, Zhao SX, Yang JF, Yu J, Zhao JM. Chitosan ameliorates the severity of steatohepatitis induced by high fat diet in rats. Scand J Gastroenterol. 2008;43(11):1371-7.
http://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2007/trabalhos/exatas/inic/INICG00047_03O.pdf
http://www.gauerdobrasil.com.br/public/biblioteca-virtual/quitosana/chitin-chitosan-properties-benefits-and-risks.pdf
http://www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2006/010906.htm
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